O Canto Gregoriano difere da música contemporânea em muitos aspectos, mas o ritmo é, sem dúvida, o mais importante deles. O cantochão tem uma estrutura de ritmo livre, oposta à noção de metro, que divide a música em unidades de duração igual. Este princípio do metro pode ser achado em praticamente toda forma de música conhecida hoje em dia, quer seja clássica, rock ou jazz. Sua origem vem da polifonia, mais especificamente nos problemas que os primeiros compositores tiveram que enfrentar: quando um grupo de cantores ou músicos deveria apresentar a mesma peça, teria de começar e terminar ao mesmo tempo e continuar no mesmo passo uns com os outros. A única maneira de assegurar que as performances fossem semelhantes era introduzir algum tipo de linha mestra: a duração das notas. A soma de todas as notas em sua parte deve ser igual à de seu colega. Este é o princípio básico tanto para os motetos de Ockeghem, quanto para as sinfonias de Beethoven... quanto para as músicas ... sertanejas de Milionário e Zé Rico!
¶Como se disse, o canto gregoriano não tem metro, somente tem ritmo, que se pode descrever como um movimento naturalmente flutuante, algo como uma onda. Pode-se prever onde a água irá se elevar, mas cada onda é diferente, um pouco mais rápida, um pouco mais lenta, um pouco mais alta. O padrão rítmico gregoriano é mais ou menos comparável a esta imagem: parece regular mas sob esta capa de regularidade, existe uma grande diversidade e liberdade. Isto se deve principalmente ao seu aspecto monótono, que liberta os cantores da pressão de cantar contra uma batida... E este é uma característica fascinante do canto gregoriano.
¶Pegar a nota não é tão difícil no gregoriano atual. O ritmo é bem mais complicado. Cada peça tem seus problemas rítmicos próprios, baseados sobre o padrão natural da fala do texto. Este é o motivo pelo qual se indicam os acentos sempre nos livros de canto gregoriano. A tensão se constrói gradualmente em direção ao acento e decresce depois. Num nível superior, há um padrão geral da sentença inteira e de suas partes. Todos estes elementos se combinam num conjunto complexo incrível de ritmos, que se apóiam um ao outro, e eventualmente definem o padrão da peça como um todo.
¶Durante a idade de ouro do canto gregoriano, os cantores não só conheciam as melodias de cor, mas haviam também incorporado detalhes rítmicos sutis das gerações prévias. Quando houve uma decadência geral deste tipo de canto pelo século X, os monges escreveram as peças e as preservaram para as gerações futuras. Embora o sistema de neumas tenha suas falhas, especialmente no que diz respeito à indicação da melodia e tom, seu aspecto rítmico foi incrivelmente refinado. Os neumas foram considerados um tipo de segredo, um código que não poderia ser quebrado por muitos séculos, o que foi uma das causas da queda em popularidade. Há cerca de um século, contudo, tem-se descoberto os segredos, principalmente graças aos estudiosos de Solesmes. O conhecimento renovado nos leva a restaurar o ritmo original deste canto, e finalmente a abandonar a técnica de improvisação que dominava.